65 anos de Serviço Social na Bahia: conquistas e novos desafios à formação profissional
Em 2009 comemoramos 65 anos de institucionalização do Serviço Social na Bahia, marcado pelo aniversário da Escola de Serviço Social da UCSal, primeira instituição a contemplar o curso na região. Só este fato já é um dos motivos para comemorações. Além disso, poderíamos, no imediato, comemorar a expansão dos cursos de Serviço Social na Bahia nos anos 2000, imaginando que isto significa o reconhecimento da necessidade social da nossa profissão na contemporaneidade. Porém, muitos desafios se colocam em cena num cenário expresso por uma lastimável crise que afeta e traz consequências desastrosas em todas as áreas da sociedade, promovendo mudanças no cenário político e econômico mundial que inflexionam os aspectos ambientais, culturais, éticos e sociais do Brasil.
Assim, o que percebemos, é uma nova forma de pensar e gerir a educação superior, seja no âmbito privado, com o processo de mercantilização do ensino, já que o Estado deixa de assumir algumas responsabilidades históricas como a implementação da política educacional, seja na esfera pública, com as novas formas de flexibilização da academia em um cenário já favorável à flexibilização em todos os âmbitos.
Une-se a isto a expansão da modalidade de ensino à distância (EAD) ou semi-presencial, sustentada em um discurso ideológico de modernidade ou pós-modernidade, que verifica nos avanços tecnológicos possibilidades de democratização. Ah! Para os defensores, os questionadores desta nova modalidade de ensino, são anti-democratas, contrários ao processo de inclusão e conservadores. Mas, como não questionar um ensino que é financiado, orquestrado e exigido por organismos internacionais para dar conta de um retrocesso histórico brasileiro que excluía do ensino superior mais de 90% da sua população. E afinal, será que agora vamos proporcionar o acesso de todos? Que tipo de inserção será esta?
Na verdade continuamos excluindo, é um apartheid camuflado, pois, os historicamente excluídos terão acesso ao ensino superior. Mas acesso sem qualidade, sem direito à pesquisa, sem direito à extensão, sem direito à militância, sem direito ao pensamento crítico e reflexivo. Ficam no plano das atividades imediatas, dissociando conhecimentos indissociáveis, como o ético do político, o teórico do metodológico e o técnico do operativo. E agora, o que fazemos?
Não cabe aí culpabilizar sujeitos, pois, a ausência de financiamentos e apoio para a realização do ensino, da pesquisa e da extensão, independem da vontade e dos esforços individuais destes atores que fazem parte do processo, que muitas vezes não têm disponibilidade e disposição para tais projetos, pois os docentes, como trabalhadores, também sofrem rebatimentos desta crise, são professores horistas, com contratos de trabalho precários, que atuam em diversas áreas e tentam dar conta de vários empregos. Quanto aos alunos; se tornam estudantes adestrados, como mencionou Marilena Chauí (1999), ou colaboracionistas e a-críticos a ordem do capital, como salientou Larissa Dahmer (2007).
Neste sentido, é preciso que retornemos às discussões para verificar quem são os nossos inimigos e não percamos o foco. É preciso continuar defendendo o projeto ético-político profissional, mas para isto faz-se necessário o desenvolvimento de competências teóricas, metodológicas, técnico-operativas e ético-políticas, para que em tempos de contra-reforma, o Serviço Social venha no movimento contrário, com um projeto que continua defendendo direitos sociais e a execução das políticas sociais com qualidade no âmbito estatal, o que não deve ser diferente com a Educação Superior.
E a qualidade dos cursos não deve ser pautada em simples avaliações, por isso, não podemos ficar satisfeitos apenas com as altas notas em provas realizadas pelo MEC. O que elas provam mesmo?
Mas, apesar de tudo isso como afirma Iamamoto, "os assistentes sociais formam uma categoria que tem ousado sonhar, que tem ousado ter firmeza na luta, que tem ousado resistir aos obstáculos, porque aposta na história, construindo o futuro, no presente" (IAMAMOTO, 2005, p. 80). Foi assim, que mesmo em um contexto de contra-reformas verifica-se algumas vitórias na Bahia, como: o Mestrado em Políticas Sociais e Cidadania, na UCSal, primeiro na área de Serviço Social na Bahia, aprovado em um momento onde a CAPES investe forte na produção de conhecimento nas áreas das ciências exatas e muito pouco nas ciências humanas e sociais; Importante ainda a conquista alcançada com a implantação dos Cursos de Serviço Social na Universidade Federal do Recôncavo (UFRB) em 2008 e Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 2009, ambas universidades públicas e federais baianas.
Agora! É hora de continuar empreendendo lutas para alcançar outras vitórias, como mestrados públicos e gratuitos, já que o existente exige remuneração e não é acessível a todos. Além disso, é preciso garantir a qualidade nas instituições de ensino, sejam as mais antigas ou mais recentes, públicas ou particulares, pois o status de universidade, ainda que exija a realização do tripé (ensino, pesquisa e extensão), não está distante da realidade e não supõe a existência de qualidade.
Enfim, é preciso continuar com os esforços coletivos que a nossa categoria sempre se orgulhou de ter em defesa das principais bandeias de luta do Serviço Social, como é o caso, da qualidade no processo de Formação Profissional.
Caroline Ramos do Carmo
Assistente Social - CRESS - 5ª R 4895
Especialista em Gestão e Metodologia da Educação Superior
1ª Secretária do CRESS/Ba
REFERÊNCIAS
CHAUÍ, Marilena. A universidade operacional. In: Folha de São Paulo. São Paulo, 9 maio 1999, p.3, Caderno mais!
DAHMER. Larissa. Mercantilização do Ensino Superior e Formação em Serviço Social: em direção a um intelectual colaboracionista?. In: Revista Ágora: Rio de Janeiro, ano 3, v. 6, 2007;
IAMAMOTO, Marilda. O Serviço Social na contemporaneidade: Trabalho e formação profissional. São Paulo: Cortez, 2005