Entrevista com a professora Ana Elizabete
"Nossa
profissão é de intervenção
social"
1.
Jornal do CRESS - A trajetória do Serviço
Social está ligada à questão social
brasileira? Atualmente, quais as perspectivas, limites
e possibilidades para a profissão?
Profa. Ana Elizabete - O que a gente pode dizer é
que inegavelmente há um agravamento da questão
social no Brasil, entendo que é uma questão
histórica, inerente à sociedade capitalista,
meio próprio de reprodução das desigualdades
sociais. Nesse sentido, não há uma relação
direta entre as questões sociais e o Serviço
Social. A questão social se refere ao desenvolvimento
de uma relação dentro da sociedade de classes.
O enfrentamento da questão social se faz pelos
movimentos sociais, na luta pela superação,
ou através das políticas sociais que são
mecanismos de enfrentamento. Um dos aspectos de ganha
destaque hoje nesse enfrentamento é a nova política
de assistência social, através da regulamentação
e da criação do sistema único. Não
como mecanismo de superação, mas como uma
das formas de enfrentar as seqüelas da questão
social.
É um momento complexo da realidade brasileira porque
só há alternativa de enfrentar e superar
essa situação social se alterar a base produtiva
dessa sociedade, através de mecanismos de inserção
no trabalho, distribuição de renda, do acesso
a meios de vida.
São necessárias políticas públicas
de enfrentamento que atendam as necessidades reais. Com
democratização nas decisões.
As políticas públicas não vão
superar as desigualdades, porque há uma diferença
entre superar e enfrentar. E dentro dessa sociedade dificilmente
as desigualdades serão superadas. Tudo isso passa
pelo Serviço Social, mas não é exclusivo
do Serviço Social.
2.
J. CRESS - O que poderia ser feito para dar mais visibilidade
aos profissionais do Serviço Social em nossa sociedade?
A.E. - Olha, eu não acho que a
profissão sofra de ausência de visibilidade.
Talvez, pensando nas relações de poder das
profissões se pudesse chegar a essa conclusão.
Até na escala dos maiores empregadores que o Serviço
Social tem, ele é visível. No Sistema Único
de Assistência Social (SUAS), por exemplo, o protagonismo
dessa profissão é inegável. Então
é uma profissão visível, institucionalizada
e reconhecida. A gente tem que ter é a clareza
de que dentro da divisão social e técnica
do trabalho, a principal característica dessa profissão
é a intervenção, na relação
direta com o usuário. Hoje é uma profissão
que tem expressão política, com interlocução
no debate intelectual nas ciências sociais, com
instâncias de organização fortes.
Os Conselhos, o Cefess, o movimento estudantil, são
respeitados. É o terceiro ou quarto curso com maior
concorrente por vagas nas universidades.
É uma profissão predominantemente feminina,
com baixos salários, tem um ambiente muito precarizado
em termos de estabilidade, de direitos e relações
trabalhistas. Mas isso não pode obscurecer o fato
de ser uma profissão com mercado em expansão,
o que é uma coisa raríssima no mercado.
3.
J. CRESS - De que forma, o assistente social na sua práxis
profissional pode fortalecer o controle da sociedade civil
nas ações do governo?
A.E. - Eu penso que o Serviço Social pode
contribuir, mas essa é uma questão de toda
a sociedade. Passa pela democratização da
esfera da política. Podem existir mecanismos formais
de controle, mas não têm uma efetividade
real. Os assistentes sociais podem dar uma contribuição
através do estímulo, da mobilização,
do esclarecimento, da instrumentalização,
da formação de conselhos e instâncias
organizativas que tenham esse objetivo de controle. Contra
o desvio de recursos, com estratégias da criação
de novos mecanismos. Controle macro é algo que
nessa sociedade implica em luta de classes.
O Serviço Social primeiro tem que ter muita clareza
da natureza do conceito de controle social, das suas implicações
teóricas e políticas, para não tratar
o controle como uma questão burocrática
e formal.
É preciso saber qual o sentido do controle. Sobre
qual objeto, sobre qual instância, quais sujeitos,
quais situações. E nesse sentido tem muito
que fazer, como técnico, intelectual, político.
É preciso considerar a dimensão ética
porque a esfera pública é composta por sujeitos
sociais que vão se confrontar e estabelecer correlações
de forças. É isso que determina historicamente
a viabilidade de implementar mecanismos de controle.
4.
J. CRESS - Num recorte sob a referência do Serviço
Social, qual a sua opinião sobre o governo LULA?
A.E. - Não tenho condições
de fazer essa avaliação. Talvez os profissionais
que estejam mais vinculados às políticas
setoriais, de previdência e seguridade tenham informações
mais precisas sobre isso. Acho que o avanço do
controle não é do governo, mas da sociedade.
Ela é que desenvolve - através dos movimentos
sociais -, os mecanismos de controle, que não são
apenas conceitos. Não podemos burocratizar a idéia
de controle social achando que vai se dar naquele lugar,
naquela instância, naquele processo definido pela
lei. Existem também outros mecanismos, através
da mediação entre os sujeitos.
5.
J. CRESS - Qual a sua analise do debate realizado com
as assistentes sociais da Bahia no dia 15 de maio deste
ano?
A.E. - Pra mim foi um prazer muito grande estar
em Salvador e reencontrar pessoas. Foi um debate interessante,
informativo, formativo e participativo. Foi também
um momento de disputa política. Estava muito efervescente
a sucessão na UCSal, então foi mediado por
esse movimento político.
Os profissionais em Salvador têm se apresentado
muito enquanto movimento de categoria e isso é
um diferencial. Aliás, o Cress tem desempenhado
um papel fundamental na articulação com
os movimentos da categoria, encaminhando uma agenda, uma
pauta de discussões, também isso é
muito peculiar ao serviço social.
Apesar da crise do sindicalismo no interior do Serviço
Social, essas entidades da categoria têm conseguido
fortalecer a dimensão política dos embates
que alteram condições e relações
de trabalho. E a semana do Assistente Social foi um coroamento
desse processo.
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